Hipnose, medo, consciência. O que o cavalo ensina.

Estudos de anatomia comparada são frequentemente informadores acerca de peculiaridades clinicas e fisiológicas do mais alto interesse. Na verdade, muitos dos modernos estudos neuro-funcionais com fMRI por exemplo mostram resultados que simplesmente confirmam o que as observações clínicas haviam já desvelado há anos. Quem pratica hipnose clínica como médico e terapeuta tem o privilégio de um ponto de vista observacional que ninguém que não seja médico nunca poderá ter. Em fato, um médico tem o poder da observação clinica ditada pelo conhecimento e pela experiência. Experiência sem conhecimento é perigosa enquanto conhecimento sem experiencia é inútil.  A observação clinica ainda hoje representa o método mais afinado para deduzir informações biológicas e para poder propor hipóteses de fisiologia e de fisiopatologia. Os instrumentos só são úteis em confirmar ou não confirmar as hipóteses clínicas funcionando como uma “road map” para o caminho da verdade fisiopatológica.  Apesar disso, um médico que tenha conhecimento de anatomia comparada possui uma ferramenta a mais para uma correta interpretação dos eventos clínicos.  Um médico que tenha conhecimento do comportamento animal (etologia) pode tirar vantagem disso para uma comparação comportamental que se refere ao funcionamento inconsciente. E assim chegando ao cavalo, noções de anatomia comparada e comportamentais etológicas, podem ser uteis em apurar alguns fatos que são acriticamente aceitos na hipnose, sem que alguém tinha sentido a necessidade pelo menos de propor hipóteses esclarecedoras.

O cavalo é animal predado e por isso muito diferente por exemplo do comum cachorro doméstico que ao em vez representa um predador. De fato, o comportamento do cavalo segue essa definida distinção dando muito espaço a sentimentos reativos de fuga a frente de presumidas ameaças. A anatomia cerebral do cavalo destaca-se por algumas peculiaridades que, apesar de ser fonte de discussão, de fato expressam umas atitudes neurofisiológicas do animal muito interessantes. Há quem diz que o cérebro do cavalo falte do assim dito “corpus callosum” ou seja da substância branca que trabalha como ponte de comunicação entre cérebro direito e cérebro esquerdo. Isto não é verdade pois anatomicamente o cavalo possui um definido corpus callosum, apesar que seja menos representado em comparação ao do ser humano ou dos primatas. Mas o que ressalta é que o corpus callosum equino é funcionalmente quase inativo, rendendo então o cérebro de fato separado em duas unidades independente (cérebro dual ou diádico). O cérebro direito hospeda os centros hipotalâmicos que processam as reações de fuga contra os predadores, enquanto o cérebro esquerdo os centros que processam informações vitais ligadas a sentimentos mais “prazerosos” (devidas à alimentação, sexualidade etc.) Como as vias nervosas visuais no cavalo se cruzam quase completamente, as de esquerda para o cérebro direito, e as da direita para o cérebro esquerdo, o cavalo possui um olhar que se diferencia em dependência do campo visual interessado. Todo isso rendido ainda mais evidente pela presença de uma zona “cega” anterior e uma posterior que ulteriormente separam o que a mente do cavalo processa na parte direita da que processa na parte esquerda.

Assim o cavalo possui um olho “bom” e um “ruim”, ou seja um olho (o direito) que tende a ser prazeroso e a interpretar os eventos de forma positiva, e um olho (esquerdo) que tende a ser suspeitoso e a evocar o mecanismo da fuga enquanto ligado à interpretação do perigo ambiental predador. É um fato que estudos recentes tinham demonstrado que o cavalo tende a usar um olho ou um outro em dependência dos acontecimentos ambientais e que seja também capaz de interpretar as emoções humanas. De fato, o cavalo olha para um ser humano que mostre expressões “negativas” (raiva por exemplo) com o olho esquerdo, e com o direito para um ser humano que mostre emoções positivas (alegria). Sendo os olhos do cavalo posicionados aos lados da testa e não na parte frontal, ele faz isso movimentando a cabeça propositalmente de acordo com o olho utilizado. E como o cavalo não possui os músculos oculares da acomodação, depois de ter movimentado a cabeça correntemente com o olho em questão, ele a movimenta de baixo para o alto e vice-versa com o propósito de fixar a imagem recém criada nos pontos exatos de foco da retina.

No campo humano, a PNL nos informa que os olhos de um ser humano não são equivalentes também. Ou seja, também no ser humano existe um campo visual “bom”, relacionado por exemplo a processos visuais mnemônicos agradáveis, e um campo visual “ruim” relacionado por exemplo a processos visuais mnemônicos desagradáveis. Assim, inconscientemente, o ser humano tende a classificar como bom o ruim a pessoa que esteja no próprio campo visual bom o ruim.

O cérebro do ser humano possui os centros das amígdalas exatamente como o cavalo, fazendo parte da organização anatômica e funcional do paleo e arqueo encéfalo, mentes emocional e reptiliana, correspondentes ao hipotálamo. A amigdala de direita processa o sentimento de medo e as memorias relacionadas à experiencias de medo, como recentemente verificado por meio de estudos com fMRI e como já evidente pelas observações clinicas e experimentais mais clássicas e antigas.

Basicamente então, no campo da comunicação humana, se sabe que dependendo da própria localização visual, o interlocutor pode inconscientemente se relacionar de forma suspeitosa ou acolhedora, sem alguma racionalização logica (o famoso “primeiro olhar” que tanto pode influenciar o juízo sobre os outros). O hipnotista tem então que localizar o campo visual preferencial onde se dispor afim de construir um solido “rapport” hipnótico.

Isto pode ser feito através de uma apurada observação dos movimentos oculares que tendem a indicar o lado relacionado à experiencias positivas ou negativas relembradas sob a influência de perguntas especificas.

Mas o ser humano é bem mais complexo de um cavalo e a definição de lado é insuficiente a explicar muitas peculiaridades de uma polaridade que se relaciona com outros interessantes mecanismos psicológicos.

O cérebro humano se divide em uma parte esquerda e uma parte direita (energeticamente e anatomicamente falando). A influência da mente envolve as manifestações polares do lado direito e esquerdo do corpo. O lado esquerdo representa a moradia de uma entidade psicológica definível “guardião de porta”, ou seja a que tende a manter fechadas as portas que, quando abertas, manteriam em excesso o fluxo emocional. Então representa a mente logica e critica. O lado direito é moradia para uma outra entidade/instancia psicológica que pode ser chamada de “mestre de chaves” ou seja a instancia inconsciente/emocional que está sempre interessada a abrir as portas que limitem a sua liberdade expressiva. Claramente estas expressões metafóricas relacionam-se estritamente com estruturas anatômicas e funcionais bem definidas (neocortex, paleocortex) e a prevalência de uma ou da outra se manifesta com expressões funcionais significativas prevalentes na parte corporal correspondente. Essas manifestações funcionais podem ser espontâneas ou provocadas através de manobras “hipnóticas” afim de determinar qual seja a inclinação prevalente naquele determinado momento naquele especifico sujeito afins comunicacionais ou clínicos/terapêuticos.

Voltando ao assunto ocular então, as conclusões destas observações são as seguintes:

  1. O campo visual “bom” e o campo visual “ruim” existem no ser humano como em outros mamíferos “predados” como o cavalo (é um fato que o ser humano, apesar de ser o mais perigoso predador, no início da vida humana na Terra era objeto de predação por muitos animais ferozes de várias espécies).
  2. Enquanto o campo visual “bom” e “ruim” de um cavalo permanece fixo sendo relacionado somente a expressão neurofisiológica reativa ao sentimento de medo, mediado pela amígdala de direita, no ser humano essa lateralidade pode variar no tempo pois ela é relacionada à fatores psicológicos diferenciados e múltiplos.
  3. Enquanto o sentimento de medo lateraliza de forma “equina” e resposta mental com a ativação da amígdala direita, outras variações das dinâmicas psicológicas determinam um claro dinamismo das atitudes oculares, que podem variar em relação à comutações psicológicas entre “mestre de chaves” e “guardião de portas”.

Em suma, no campo da hipnose um cavalo ensina muito mais que qualquer “professor” de uma ciência inexata e artística como a hipnose, cuja compreensão pode chegar exclusivamente da experiencia clínica e conhecimento da fisiopatologia, juntas com uma cultura multinível,  que abrande ciências e conhecimentos os mais amplos e variados quais química, física, anatomia, neurologia, clinica medica, psicologia, cibernética, comunicação, simbolismo, filosofia, etologia e outras, todas unidas em um coletor único que permita de usar a pratica da hipnose não a fim de espetáculo ou ridículas manifestações frequentemente lesivas da dignidade dos outros, mas sim para fins culturais, terapêuticos e de pesquisa.

Dr., PhD e MD Roberto Baglini

Cardiologista, PNL Practitioner, Hipnólogo, Hipnotista, Analogista.

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